"Pensar enlouquece. Pense nisso." Pensei e não deu outra. Gostaria de tornar meu devaneio coletivo. Algum medo de sair da razão pare de ler. Pois o que mais me assusta em conversa de maluco é a tamanha sanidade de seus relatos...
Pensei sobre palavras. Pensei no que querem dizer quando são ditas. Ao que correspondem? Acho, no meu humilde QI, que quem inventou isso ai de comunicação pensou o seguinte: "sinto coisas, vejo coisas e quero dividir com outro, certo? Logo, vou inventar uns sonzinhos para traduzir exatamente o que eu penso, o que eu vejo e por ai vai." (Desculpem a historinha em tom de narrativa infantil, mas assim não tem como ninguém ficar sem entender). A partir dai e com uns bons milênios, esse negócio de comunicação e expressão foi melhorando, sinais, várias línguas, imagens e por ai vai. Mas desconfio um pouco disso hoje em dia. É. Desconfio da comunicação, melhor colocando, desconfio das palavras.
Aí sempre tem um pra dizer: "ah, você então não confia em ninguém, porque quem fala são as pessoas", ou então algum relativista pode alegar: "nunca saberemos nos comunicar pois o que é dito e as palavras que são ditas têm um significado individual..." e por ai vai.... mas comigo esse negócio foi diferente. Não desconfio das pessoas não, porque se elas falam é porque têm algo a ser dito, mesmo uma mentira, mentiras são verdadeiras na medida em que a vontade de proferí-las foi legítima. Nem tão pouco acho que palavras e os sentidos das mesmas sejam relativas, porque afinal de contas, nos entendemos certo? Bem ou mal não é a questão, mas a coisa anda... Pensei mais no sentido: porque dizer o que eu quero dizer? O que motiva as pessoas a continuarem falando nessa tentativa de comunicação, falha por diversos argumentos, porém funcional, na medida em que vemos o resultado disso.
Pensei nas mentiras. Verdadeiras na minha opinião, sim. Mas porque traduzir em palavras sentimentos e fatos que não correspondem à realidade? Quando tranformamos o que quer que seja em palavras acredito que seja com o intuito de tornar público o privado. (Mesmo nas conversas com nós mesmos, pensar consigo é uma forma de você mesmo se ouvir, organiza sabe?) Mas enfim... Porque expor ao outro uma coisa que sei que não corresponde com uma realidade? Depois eu que sou maluca.
Tipos diferentes de coisas a título de informação: um louco diz: "sou napoleão" - ele não está mentindo. Ele é napoleão, a realidade dele é esta. Quer pega pesado no próximo exemplo? vamos lá... uma pessoa "normal" diz: "te amo...." puuutzzz... Eu preciso explicar as complicações disso? Acho, alias, tenho certeza que não. Mas vamos lá, continuar com uma argumentação absurda. Digamos que o "normal" proferidor da frase "eu te amo" realmente acredite nisso que nem o "louco". Está criada a realidade então para o ser que ouviu isso: "ok... Esse normal ai me ama." E está tudo bem. Vamos complicar mais. Colocaremos um terceiro "normal" nessa conversa. E ele diz: "O normal 2, não ama você. Normal 2 falou que não ama ninguém." Ok. Momento de surto para o pobre normal 1. Mas vamos continuar. O normal 1 tenta se organizar: " Normal 1 não me ama." e temos agora duas realidades. Tirando as variáveis, de quem disse o que para quem de quem ouviu...isso não importa. E é o que acontece na maioria das vezes. Esse é o poder das palavras. Elas podem construir e descontruir mundos. Então o normalzinho 1 começa a ter duas realidades e como ele sabe que isso não é possível, ele vai e escolhe uma. Não importa qual. E nem importa qual seja verdadeira. Ele vive para ele mesmo. Escolherá aquela que dentro de suas faculdades mentais lhe seja mais aprazível e verossímel.
Agora o salto para a "loucura"... se a comunicação era para ser coletiva, porque selecionamos o que acreditar? Pescou? Não importa o que eu diga nem o motivo com que eu diga. Não depende de mim se o destinatário irá aceitar o que foi dito. Responde vai... pra que falar??? Vamos colocar melhor, porque eu acho que sei porque falo. Mas então: pra que ouvir??? Que bagunça. Esses normais conseguem bagunçar tudo. Dizem até que existe um negócio que se chama confiança e outro que se chama crença. Mas a gente ganha isso pelas palavras e pelos atos. Se as palavras já são complicadas e apenas exigem a ação de poucos músculos para serem proferidas... você imagine os atos... outros danadinhos escorregadios. Falaremos depois deles (ou não) mas pense nisso ao menos.
Tipo esse monte de palavras que eu juntei agora, digo que traduzem meu estado de espírito. Um devaneio desses que acontece de madrugada no meio de uma insônia sonolenta e Sessão corujão.
Deixo um protesto: pela comunicação sem complicações. Pela comunicação simples, pura e ingênua. Diriam os românticos: falar com o coração. Diriam os estudiosos: falar com signos correspondentes à realidade. Diriam os loucos: sejamos todos napoleões!