Me visto sem luxo, sem glamour. Não há necessidade. Estou prestes a enfrentar uma longa jornada. Conforto e somente conforto é necessário. Talvez eu nem sobreviva, não posso pensar em moda. Com a bolsa já pronta e a postos como manda a necessidade, saio apreensiva para minha jornada. Apenas mais um dia na minha vida...
Andando nas ruas até então calmas, percebo aos poucos rugidos. Aumentam, chegam mais perto. Tenho que correr para pegar o transporte que me levará ao meu ponto alvo número 1 a tempo. A hora está certa, mas temo pela falta de sincronização. Será que não conseguirei?
No horizonte então desponta, grande e azul, com o código indicativo 38A. Era este o sinal. É este o transporte. Só entrar, mas não é tarefa tão simples.
Devido aos perigos que serão encarados pelo motorista nessa empreitada me cobram. Não vale escambo. Somente dinheiro. Vivo. Cash. Não é barato. Tento negociar, mas minhas tentativas são infrutíferas. Pago o valor e então passo por grades para me acomodar em um assento. Devo correr muito, são poucos os privilegiados que podem desfrutar de uma viagem sentados. Vejo um banco livre. Também o vê uma moça corpulenta e com muitos volumes na mão. Nos olhamos. Entendemos. Tenho que ser rápida. Transformo sua força em fraqueza, me aproveitando de seu tamanho e corro o mais rápido que posso para me acomodar. Sento-me e agradeço ao Senhor, por essa benção na viagem.
A jornada segue monótona. As pessoas não se falam, não se cumprimentam. O desgosto e o sono imperam no ar. E cada vaz mais e mais pessoas entram. Nenhum pode ficar para trás. Chega de repente o ponto final. É aqui que devo descer, mas é aqui que todos descerão também.
Depois de conquistar vales e montanhas é chegada a hora de desbravar os mares. Ao longe ouço o som da minha embarcação. Será que chegarei a tempo? Depois de tão exaustiva viagem não posso fracasar. Não. Não agora. Me apresso, mas dessa vez fui vencida pela moça corpulenta. Seu tamanho obstruiu completamente minha passagem. Me acalmo e com paciência vou andando atrás dela rumo ao meu destino. Corro. Atravesso pistas onde veículos desgovernados se movem em alta velocidade. Arrisco minha vida, mas é preciso.
Com o coração ainda batendo forte no peito, o suor que me escorre pela tez, descanso um pouco na área de embarque. Descanso fugaz. Logo se ouve o apito, abrem-se as cancelas, e feito gado, uma massa de flagelados correm para a barca. Soa mais um apito, tal qual um berrante para os rés. Colocando ordem, e imprimindo uma urgência em seu chamado. Mas dessa vez uma massa de pessoas fica para trás. Olhando desejantes a barca que se vai. Agora só daqui a 20minutos. Olho triunfante para os que ficam.
Dentre pisadas e empurrões consegui um lugar sentada. Um senhor olha furtivamente para meu lugar. Sei que estou numa poltrona de código laranja. Mas essa é a lei da selva. Finjo dormir. Mas que droga! Minha consciência me acorda e cedo meu lugar ao senhor. Meu lugar, meu querido lugar, refúgio momentâneo de uma jornada suada. Mas ajo de maneira nobre. Aproveitando-me de minha nova situação bípede me aproximo das portas de saída.
A barca atraca, ouve-se mais uma vez o berrante, e sai a manada. É melhor correr para não ser pisoteada na debandada. Não posso ajudar o senhor. Coitado, acho que não sobreviverá à tal fúria coletiva. Mas não posso me deixar distrair de meu objetivo. Chego em uma praça. E com a rapidez de uma gazela procuro o abrigo subterrâneo, pelo qual passará um novo meio de transporte para me levar ao ponto alvo número 2, o destino final. Olho ansiosa os veículos que passam, não posso perder de vista o que possui o código chave para o meu destino. O subterrâneo se enche cada vez mais. Mais e mais pessoas perdidas procurando pelos seus veículos e seus códigos. De pronto, vem despontando no fim do túnel um veículo. Será? Não enchergo direito os numeros. 455. É este! Vejo o alvoroço se formando em minha volta. Muitos almejam o mesmo destino. Porém só tem apenas um veículo. E não restam muitas vagas.
Começo um processo de cercamento. Mas não sou a única. Aos poucos se forma um paredão de isolamento, onde uns empurram os outros. Corro o mais rápido que posso em direção à porta do veículo, mas dessa vez não tive sorte. A porta parou longe de mim. Me amontuo e me misturo aos demais. A mulher corpulenta mais uma vez se aproxima, mas já não me preocupo, sei que na velocidade ganharei como das outras vezes. Ela não é páreo. Mas não posso me distrair de meus objetivos com competições egoístas, apesar dela me despertar uma raiva sem sentido. Aglomeração. A essa altura algumas pessoas já não cheiram tão bem, mas não posso me deixar ser vencida por odores fétidos. Logo eu, poderosa desbravadora de mares e montanhas. Já cheguei muito longe. Infelizmente não consigo um lugar sentada. Vou em pé. Uma alma solidária se oferece para carregar minha pesada bolsa. Um sorriso em meus lábios. Talvez a humanidade não esteja perdida. Só talvez. A viagem segue. Sempre monótona como as outras. Ao longe o choro de uma criança. Pobre coitada... No colo de sua mãe no calor, sem direito a se sentar. As crianças pequenas não podem se dar ao luxo de se sentar nesses veículos, e as que o fizeram nunca mais foram vistas, assim dizem os boatos, portanto ninguém se arrisca.
Mesmo em pé, sinto meus olhos se fecharem vagarosamente devido ao cansaço. Me encontro num estado surpreendente de relaxamento em meio a meus pares sofredores. Então desperto com um sobressalto. Coração batendo forte e piscando rápido para enxergar a fonte do vozeirão que se desculpa por incomodar o silêncio de nossa viagem, mas que vem trazendo ali a diversão de nossa viagem e a alegria para as crianças. Em meio a milhares de guloseimas sortidas e coloridas ele explicita as boas características de cada uma. Não posso perder tempo com guloseimas. Estou cada vez mais perto de meu objetivo. Terminada a enconsta desta praia, só me resta passar por mais um túnel. Mas para minha supresa, não é tão fácil assim.
Muitos outros veículos estão querendo passar por este túnel e me vejo apreensiva pela minha saída. Uma moça de cabelo engraçado pixaim molhado vermelho se apressa para a porta. Me pergunto quantos segundos de sua viagem ela ganhou por deixar o cabelo sem esmero, e me pergunto se não deveria fazer o mesmo. Afinal, nessa empreitada o penteado é desnecessário e despercebido. O veículo para e finalmente cheguei aonde queria. Praia Vermelha. Acho que o nome é em homenagem aos que derramaram seu sangue e suor, principalmente suor, nessa jornada. Agora só tenho que me preocupar com a volta.... Mas essa ficará para outro relato dessa nova empreitada, que chamarei "De volta a Terra do Nunca".