quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

É culpa da Cinderella

Se eu quero escrever é porque tem alguma coisa que os macacos do meu sótão estão me implorando pra organizar. Vamos então, rumo à ab-reação em um texto um tanto quanto pessoal.
Vi uma foto minha. E como sempre o olhar não se detêm a um simples estímulo respota e vi e pronto. O olhar me traz o enxergar, o ver, o perceber. Aí já viu....
Comecei a pensar então sobre contos de fadas, príncipes e princesas. (Não, não vou explicar a relação da foto com esse pensamento, mas tem tudo a ver). E meio a uma certa melancolia, voltei ao presente me questionando sobre esse tal de felizes para sempre, e mais mil outras coisas nessas histórias infantis.
Decidi começar pelo príncipe. Sujeitinho esquisito esse. A maioria deles usa calças colantes, bota e capinha, isso hoje em dia não se chama príncipe não. E na maioria das vezes sabem o que fazer e sempre aparecem na hora certa... Como eles sabem dessas coisas? E não quero nem comentar que TODOS eles cantam e dançam. Cantar estilo Eddie Vedder é sexy, dançar tipo Justin é sexy, mas cantar e dançar de calças colantes, não... não é legal.
Além da revolta com a figura do príncipe, a que me deixou ainda mais irritada foi a figura da princesa. Ô bicha besta. Ou só sabe lavar-passar-cozinhar e não da nem um forazinho nas irmãs chatas, ou desmaia na hora H em que o esquisitão lá sabe muito bem o que fazer, como fazer e onde estar. Timming perfeito, não?
E desde criança eu assisto essas coisas, e ainda por cima: gosto. A maioria das meninas que hoje são mulheres também gostavam dessas histórias. E me veio o insight: se hoje em dia as mulheres estão insatisfeitas com os relacionamentos da vida real, a culpa é todinha da Cinderella, ou qualquer outra lá com sangue de barata.
Ok, a culpa toda não. Uns 50%, porque os outros 50% dessa culpa aí, elas dividem com o infeliz do narrador. Quando ele fala com aquela voz de magia: "... e viveram felizes para sempre." Que ódio! Até parece! Como assim? Já começa pela própria frase que em si ofende as leis da natureza: "viveram" e "para sempre"... É Branca de Neve ou Highlander, cacete? E como alguém vive feliz sempre? Duvido que a Cinderella não sente falta de lavar um chãozinho às vezes e nem chora com saudade dos ratinhos.
Eu acho é mesmo que o narrador nos faz um bem. Pra não falar das complicações da vida do casal manda um: ah felizes! Sei... Feliz até a Ariel descobrir que mulher que não é peixe tem TPM, e coitado do príncipe dela, que tinha uma sereia do lado, agora tem no mínimo o ser mais perigoso do alto mar e da terra também.
E comecei a pensar nesse negócio de felizes. Mas porque isso? Porque eu tenho que ser feliz pra sempre? As vezes ser ranzinza é tão bom! E ficar P da vida então? Mandar aquele palavrão de efeito pra pessoa perfeita na hora certa? Nossa! É libertador! É de uma ranzinzice tão grande que me faz até sorrir! Ah se eu fosse a Cinderella! Eu que preparo as comidas, no mínimo um laxante no café já teria rolado. Na verdade acho que essa bondade toda e essa felicidade toda me incomoda!
E eu que me considero bem humorada! É que simplesmente isso não faz sentido. Eu só vou ser feliz se eu sei o que é sofrer, só vou saber levantar se eu já tiver caído algum dia. Então porque as pessoas não falam da infelicidade e nem das quedas, já que são elas que nos permitem ser felizes no final das contas? Porque o narrador lá não fala das brigas de casal, das discussões de relações e do "precisamos conversar"? Tudo bem, o nome já diz: Contos de Fadas. É pra ser light mesmo, né? Não ia ser bonito ver a Cinderella dar com o esfregão na cara do príncipe, nem a Bela Adormecida fingindo que está dormindo pra não... enfim....
Mas o que me espanta então na realidade é o porque então que muitas vezes adotamos essa narrativa para nossas vidas... Eu quero um felizes! Óbvio! E quem não quer? Mas não quero um felizes para sempre não. Quero um felizes as vezes. Quero brigas, para poder pensar em meios de reconciliação. Quero desentendimentos, para entrar cada vez mais em sintonia com quem eu amo, quero ciúmes, para não esquecer do desejo que sinto e que sentem por mim, acompanhados do medo de perder, próprio de quem ama, e assim me lembrar do amor que ainda existe. Quero ficar longe, para sentir saudades e valorizar pequenas coisas que a presença do cotidiano subestima. Quero decepções que me lembrem que ninguém é perfeito e que o amor se fortalece nisso: em amar os defeitos. Quero também enjoar um pouco da pessoa, para me lembrar que apesar do companheirismo eu ainda sou eu e posso ser eu livremente. É, acho que o narrador foi muito mais esperto mandando um : felizes para sempre. Simplifica muita coisa, e cá entre nós... os narradores são sempre homens. Nenhum discrédito aqui aos moços: que fique claro que felizes ou não, princesas só existem com príncipes... ou sapos.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Epitáfio

Roda gigante? Montanha russa? Comparações meio clichê sobre a vida... A vida não é nenhum parque de diversões não. Basta estar vivo para saber disso. Eu dirira roleta russa.
A vida é arriscar, é um risco a cada momento...
Pegue um revólver, coloque uma bala, gire o tambor. Puxe o gatilho. Grande decisão. Pode ser pensada, repentina, por impulso. Tanto faz o que o levou a puxar o gatilho, mas se tem que apertar não é mesmo? É assim que se brinca de viver e não tem como fugir.
Um clique, sem tiro, ainda há vida. Isso, ainda há vida.
E na tensão de uma decisão a outra, de uma encruzilhada a outra, ainda sim, há vida.
Devemos enxergar além. Entre o puxar de gatilhos, ainda respiramos. Não. Não é pessimismo. Quero celebrar a vida. Celebrar o fato de que existem mil batidas de coração entre cada puxada de gatilho que a vida nos dá. Quero ouvir cada batida atentamente e entender o que elas me dizem. Quero ouvir as batidas do coração de quem também está brincando de viver, e poder segurar a mão daqueles que amo. Poder sintonizar minhas batidas com as deles. E a cada momento que meu coração acelerar, saber que tem um coração que bate devagar para acalmar o meu. E vice versa.
Um dia porém a bala sai. Vontade divina, sorte, azar, destino, pouco importa. Morrer também não significa morte. A morte não brinca de roleta não. Morrer de rir, morrer de chorar, chorar de rir. Sofrer tanto que que da vontade de morrer, amar tanto e sentir que o coração não vai aguentar, dançar tanto e poder falar: dancei até morrer, experimentar a melhor comida do mundo e dizer que: quero comer ate morrrer, testemunhar algo grandioso e dizer: agora eu poderia morrer em paz...
Pequenas perdas, e grandes ganhos. Para cada pequena morte nossa, mil possibilidades de vida. Saber perder um amor, saber esperar por algo melhor. Saber brigar, mas também saber pedir perdão. Saber falar, mas sem perder a humildade. Comprar brigas que valham a pena. Sair de brigas que não sejam pelo crescimento e sim por orgulho. Saber viver. Saber puxar o gatilho com o peito aberto, preparado ou não para o desconhecido, mas com a fé e a autoestima de quem confia em si.
Desculpem a comparação. Mas minha vida não é parque de diversões com algodão doce. Nem uma atração: "para o mundo que eu quero descer...." Acho que, aliás, a de ninguém. Mas não quero nem saber. Estamos vivos, e pouco importa se na hora de puxar o gatilho se a bala vai sair ou não. Quero celebrar cada momento e comemorar a vida que existe.